Entrevista ao site da revista Você S/A (março de 2007)
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Telona educativaPor Rosana TanusUsar o cinema para fazer as pessoas pensarem nos seus sonhos e desejos. Esta é a proposta do médico Pablo González Blasco, fundador e diretor científico da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa), autor do livro Educação da Afetividade Através do Cinema, publicado pelo Instituto de Ensino e Fomento (IEF). Seu objetivo é estimular profissionais a refletir sobre suas atitudes e humanizar o convívio no trabalho. "Se o cinema nos ajuda a pensar e a refletir sobre as coisas essenciais da vida, ele se torna um bom recurso para melhorar a formação dos profissionais", diz o autor. Confira a seguir a entrevista que Pablo Blasco deu ao nosso site. |
1) Em seu livro, o senhor fala de emoção, afetividade, educação e
relaciona tudo isso com o cinema. Como é possível um profissional de
recursos humanos ou um líder numa empresa usar no dia-a-dia as informações
do livro?
O livro não é um manual no estilo "Torne-se um líder através do
cinema" ou "Melhore a performance da sua equipe com a ajuda de
Hollywood". Na verdade o livro não traz soluções e, talvez, o que faça
é apontar problemas e desafios para os quais o líder ou o gestor de RH terá
de procurar soluções por conta própria. O objetivo de utilizar o cinema e
esses conceitos no livro é provocar a reflexão do gestor-líder, animá-lo a
usar a metodologia e, por meio dela, a encontrar as soluções para os seus
problemas do dia-a-dia.
2) Por que o cinema foi o veículo escolhido?
O que o cinema faz é revelar os problemas, colocá-los à flor da pele, trazê-los
para o primeiro plano. Mas os desafios terão de ser resolvidos
individualmente. A missão do líder é colocar as pessoas de frente para os
problemas, ajudá-las a "subir na mesa" como faz Keatings em
Sociedade dos Poetas Mortos, para que vejam o mundo de outro modo e assumam a
própria responsabilidade diante das suas ações. É aí que o cinema entra
como ferramenta. Vale lembrar que o cinema arranca desejos profundos, motiva
para grandes sonhos, para novos desafios.
3) O senhor acredita que podemos mesmo compartilhar sentimentos dentro de
ambientes tão competitivos, e muitas vezes hostis, como os das empresas na
era global?
A globalização e a competição são situações e processos, cenários onde
os players, como se diz modernamente, devem atuar. Mas não devemos esquecer
que o ser humano - a natureza humana - continua sendo o mesmo. Isso é
filosofia, e filosofia clássica; o que nos permite conhecer o ser humano,
seus desejos e anseios, seus sonhos, trabalhar suas emoções, enfim, chegar
ao que realmente importa. Veja, por exemplo, as decisões vitais. Mesmo na era
globalizada ninguém pede o currículo a outro para ver se casa com ele ou se
vai ser amigo dele. O que realmente importa para essas decisões está muito
além do processo competitivo e globalizante, é algo que não se pode medir -
e muito menos recolher num currículo.
4) O uso da emoção bem trabalhada pode ser um diferencial na carreira do
executivo?
É sem dúvida um diferencial. Por meio das emoções conseguimos chegar ao núcleo
da pessoa, atingir o que realmente importa - a motivação -, e partindo daí
é possível construir uma carreira melhor. E também ajudar as pessoas a se
tornarem melhores. Esta é a função do líder: ajudar as pessoas a atingir
seus objetivos, facilitar o caminho, não deixá-las desistir. Isso é
interesse real pelas pessoas e o único caminho para um executivo ser visto
como um verdadeiro líder, um promotor de pessoas.
5) As empresas estão mesmo interessadas na formação de seus funcionários?
Recentemente assisti a algumas sessões de um curso para alta direção de
empresas no Iese Business School, em Barcelona, Espanha. Comentaram-se casos
reais de liderança e posso afirmar que o denominador comum dos que triunfaram
é ter uma preocupação real pelas pessoas que trabalham a sua volta. Um
diretor de uma companhia importantíssima comentou que a sua missão na vida
era descobrir talentos e promovê-los. Algo que pode parecer pouco para quem
está preocupado com o seu ego, mas que faz toda a diferença na hora de
liderar uma equipe.
Veja, por exemplo, o impacto que pode ter uma cena como o final de "O
Resgate do Soldado Ryan". Tom Hanks, o capitão, está morrendo. O
soldado Ryan inclina-se sobre ele. E o capitão apenas lhe diz: "James,
faça por merecer". Quarenta anos depois, James Ryan comparece ao cemitério
acompanhado da sua família: filhos e netos. Esse é o seu currículo, o
que ele andou fazendo nestes anos. E vem prestar contas: "Todos os dias
penso no que você me disse aquele dia na ponte. Procurei viver a minha vida
do melhor modo possível. Espero que pelo menos diante dos teus olhos eu tenha
ganho o que todos vocês fizeram por mim". E, não satisfeito, procura a
avaliação doméstica da sua vida, de que fez por merecer, e convoca a sua
mulher e lhe diz: "Diga que a minha vida prestou para algo, que tive uma
vida digna". O capitão - que era na vida civil um professor - educou
Ryan com essa simples frase - "faz por merecer" - e com o seu
exemplo de vida. Para qualquer um que pense nesse contexto, baste lembrar que
faça por merecer, para que tudo venha à tona na cabeça e no coração.
6) Gostaria que o senhor comentasse sobre o personagem principal de três
filmes que cita em seu livro, contando aos internautas o que esses
personagens, tão distantes do mundo corporativo, podem acrescentar ou até
mesmo ensinar ao profissional que busca construir uma carreira de sucesso. Os
filmes são: Forrest Gump, O Show de Truman e O Rei Leão.
Forrest Gump é o sonho e o amor. "Não sou inteligente, mas sei o que é
amar", diz Forrest. Amar é dedicar-se de corpo e alma àquilo que se
sabe fazer bem. O sucesso de Forrest é dedicação, e não inteligência nem
currículo. É alguém que vive intensamente o momento presente.
Truman é o ideal, um ensaio sobre a liberdade humana. Decide viver sua vida,
sair do faz-de-conta, da mesmice, da mediocridade, presentes na vida e nas
corporações. Todos gostariam de ser Truman, mas isto não é para qualquer
um, é para poucos. E, quando Truman navega rumo à liberdade, o controlador
do show aumenta o vento e provoca a tempestade, Truman se amarra ao barco, e
isso o salva. Quer dizer que ele foi salvo por seus ideais.
Em O Rei Leão, Simba está na boa vida, e não quer assumir que cresceu. O
macaco Rafiki lhe interroga e pergunta "Quem é você?". Não é uma
resposta que vem pronta, fabricada. O gestor, o líder de equipe, deve
incentivar a busca dos profissionais por essa resposta.
7) Para finalizar, gostaria de umas palavras suas sobre educação,
cinema e prazer.
O tema é importantíssimo. Afinal, por que vamos pensar que tudo o que é útil
tem de ser aprendido com sacrifício e dor? É possível orientar as pessoas
num ambiente de prazer, motivação e, o mais importante, onde se desperte na
equipe um verdadeiro desejo de ser melhor. Mas para tudo isso é preciso
metodologia, não é algo que se possa improvisar. É um processo que requer
habilidade e tato.
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